Há décadas os computadores eletrônicos têm ajudado os cientistas a armazenar, processar e analisar dados. Mas, à medida que uma explosão de novos conhecimentos tem mudado o panorama científico, a tecnologia também está ampliando o poder dos computadores.
Nesse novo contexto, as máquinas passam da simples análise para a formulação de hipóteses, entrando em uma área até então exclusiva aos humanos. De acordo com um artigo publicado na edição desta sexta-feira (23/7) da revista Science, em breve os computadores serão capazes de gerar hipóteses úteis sem ajuda dos humanos.
Segundo James Evans e Andrey Rzhetsky, da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, o fato é que os computadores estão se tornando cada vez menos dependentes de seus criadores.
“Com base em abordagens de inteligência artificial, programas de computadores estão se tornando cada vez mais capazes de integrar conhecimento publicado com dados experimentais, de buscar por padrões e relações lógicas e de permitir o surgimento de novas hipóteses com menos intervenção humana”, disseram.
Segundo eles, novas e poderosas ferramentas computacionais entrarão em cena na próxima década para conduzir experimentos maiores e mais complexos, permitindo um grande avanço em áreas como física, química, biomedicina e ciências sociais.
“No passado, abordagens computacionais foram mais bem-sucedidas em sistemas pequenos e bem definidos do que em maiores, menos conhecidos e mais complexos. A explosão de dados de experimentos de alto desempenho, entretanto, tem apresentado aos pesquisadores sistemas muito complexos”, disseram.
“Encarar esse volume de dados com questões tão grandes quanto em escala e complexidade será crítico porque, como disse Mark Twain, ‘você não pode depender de seus olhos quando sua imaginação está fora de foco’”, destacaram os autores.
O artigo Machine Science (doi: 10.1126/science.1189416), de James Evans e Andrey Rzhetsky, pode ser lido por assinantes da Science em www.sciencemag.org.
Agência FAPESP
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Jogo sobre Aids tem nova versão
A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) lançou uma versão atualizada do jogo digital Zig-Zaids, cujo objetivo é fornecer informações a jovens sobre o vírus da Aids e doenças sexualmente transmissíveis. O jogo pode ser baixado gratuitamente pela internet.
Desenvolvido pelo Laboratório de Educação em Ambiente e Saúde do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) da Fiocruz, o jogo é indicado para maiores de 12 anos e pode ser utilizado em escolas, no ambiente familiar, em espaços não formais de ensino, nos serviços de saúde e em espaços de lazer.
Segundo a Fiocruz, o conteúdo da nova versão é resultado de um conjunto de análises críticas sobre as limitações das ações restritas à informação biomédica sobre Aids e avaliações sobre o alcance e adequação do material.
O processo de revisão incluiu avaliação em escolas da rede pública de ensino do Estado do Rio de Janeiro e parecer do Ministério da Saúde. Na nova edição há mais informações sobre diagnóstico, dados epidemiológicos e direitos sexuais e reprodutivos de portadores de HIV.
A Fiocruz desenvolve alguns jogos educativos voltados para crianças e adolescentes, como o Jogo da Onda, que procura esclarecer dúvidas e promover reflexões sobre a prevenção da Aids, e o Trilhas, que realiza um passeio cultural e científico pelo Estado do Rio de Janeiro, além de um CD interativo sobre dengue.
A entidade faz doação de cópias do Zig-Zaids para instituições públicas e órgãos da sociedade civil mediante o recebimento de solicitação pelo e-mail zigzaids@ioc.fiocruz.br ou por carta encaminhada à: Fundação Oswaldo Cruz, Pavilhão Lauro Travassos LEAS, sala 22, Avenida Brasil 4.365, 21045-900, Rio de Janeiro - RJ.
Para fazer download do jogo acesse a página: www.fiocruz.br/ioc/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=44
Agência FAPESP
Desenvolvido pelo Laboratório de Educação em Ambiente e Saúde do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) da Fiocruz, o jogo é indicado para maiores de 12 anos e pode ser utilizado em escolas, no ambiente familiar, em espaços não formais de ensino, nos serviços de saúde e em espaços de lazer.
Segundo a Fiocruz, o conteúdo da nova versão é resultado de um conjunto de análises críticas sobre as limitações das ações restritas à informação biomédica sobre Aids e avaliações sobre o alcance e adequação do material.
O processo de revisão incluiu avaliação em escolas da rede pública de ensino do Estado do Rio de Janeiro e parecer do Ministério da Saúde. Na nova edição há mais informações sobre diagnóstico, dados epidemiológicos e direitos sexuais e reprodutivos de portadores de HIV.
A Fiocruz desenvolve alguns jogos educativos voltados para crianças e adolescentes, como o Jogo da Onda, que procura esclarecer dúvidas e promover reflexões sobre a prevenção da Aids, e o Trilhas, que realiza um passeio cultural e científico pelo Estado do Rio de Janeiro, além de um CD interativo sobre dengue.
A entidade faz doação de cópias do Zig-Zaids para instituições públicas e órgãos da sociedade civil mediante o recebimento de solicitação pelo e-mail zigzaids@ioc.fiocruz.br ou por carta encaminhada à: Fundação Oswaldo Cruz, Pavilhão Lauro Travassos LEAS, sala 22, Avenida Brasil 4.365, 21045-900, Rio de Janeiro - RJ.
Para fazer download do jogo acesse a página: www.fiocruz.br/ioc/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=44
Agência FAPESP
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Máquinas científicas
Há décadas os computadores eletrônicos têm ajudado os cientistas a armazenar, processar e analisar dados. Mas, à medida que uma explosão de novos conhecimentos tem mudado o panorama científico, a tecnologia também está ampliando o poder dos computadores.
Nesse novo contexto, as máquinas passam da simples análise para a formulação de hipóteses, entrando em uma área até então exclusiva aos humanos. De acordo com um artigo publicado na edição desta sexta-feira (23/7) da revista Science, em breve os computadores serão capazes de gerar hipóteses úteis sem ajuda dos humanos.
Segundo James Evans e Andrey Rzhetsky, da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, o fato é que os computadores estão se tornando cada vez menos dependentes de seus criadores.
“Com base em abordagens de inteligência artificial, programas de computadores estão se tornando cada vez mais capazes de integrar conhecimento publicado com dados experimentais, de buscar por padrões e relações lógicas e de permitir o surgimento de novas hipóteses com menos intervenção humana”, disseram.
Segundo eles, novas e poderosas ferramentas computacionais entrarão em cena na próxima década para conduzir experimentos maiores e mais complexos, permitindo um grande avanço em áreas como física, química, biomedicina e ciências sociais.
“No passado, abordagens computacionais foram mais bem-sucedidas em sistemas pequenos e bem definidos do que em maiores, menos conhecidos e mais complexos. A explosão de dados de experimentos de alto desempenho, entretanto, tem apresentado aos pesquisadores sistemas muito complexos”, disseram.
“Encarar esse volume de dados com questões tão grandes quanto em escala e complexidade será crítico porque, como disse Mark Twain, ‘você não pode depender de seus olhos quando sua imaginação está fora de foco’”, destacaram os autores.
O artigo Machine Science (doi: 10.1126/science.1189416), de James Evans e Andrey Rzhetsky, pode ser lido por assinantes da Science em www.sciencemag.org.
Fonte: Fapesp
Nesse novo contexto, as máquinas passam da simples análise para a formulação de hipóteses, entrando em uma área até então exclusiva aos humanos. De acordo com um artigo publicado na edição desta sexta-feira (23/7) da revista Science, em breve os computadores serão capazes de gerar hipóteses úteis sem ajuda dos humanos.
Segundo James Evans e Andrey Rzhetsky, da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, o fato é que os computadores estão se tornando cada vez menos dependentes de seus criadores.
“Com base em abordagens de inteligência artificial, programas de computadores estão se tornando cada vez mais capazes de integrar conhecimento publicado com dados experimentais, de buscar por padrões e relações lógicas e de permitir o surgimento de novas hipóteses com menos intervenção humana”, disseram.
Segundo eles, novas e poderosas ferramentas computacionais entrarão em cena na próxima década para conduzir experimentos maiores e mais complexos, permitindo um grande avanço em áreas como física, química, biomedicina e ciências sociais.
“No passado, abordagens computacionais foram mais bem-sucedidas em sistemas pequenos e bem definidos do que em maiores, menos conhecidos e mais complexos. A explosão de dados de experimentos de alto desempenho, entretanto, tem apresentado aos pesquisadores sistemas muito complexos”, disseram.
“Encarar esse volume de dados com questões tão grandes quanto em escala e complexidade será crítico porque, como disse Mark Twain, ‘você não pode depender de seus olhos quando sua imaginação está fora de foco’”, destacaram os autores.
O artigo Machine Science (doi: 10.1126/science.1189416), de James Evans e Andrey Rzhetsky, pode ser lido por assinantes da Science em www.sciencemag.org.
Fonte: Fapesp
sexta-feira, 2 de julho de 2010
Comunicação e cultura organizacional em contextos de transição tecnológica
Autor: Renato Dias Baptista
As novas tecnologias redesenham o cenário organizacional e impactam sobre a cultura e os sistemas de trabalho. Atrelado a essas transformações, estão a globalização e as imposições da velocidade dos métodos produtivos, da pressão pela renovação contínua e da rápida obsolescência. Nesse cenário, a comunicação possibilita um redesenho dos processos evolutivos das empresas e passa a ocupar um espaço de elevada importância para a elaboração de estratégias organizacionais.
Introdução
Somos capazes de resistir às informações que não adaptam à nossa ideologia, percebendo essas informações não como informações, mas como trapaças ou mentiras. Edgar Morin, Para sair do século XX
A evolução tecnológica fomenta intensas transformações organizacionais que provocam impactos sobre os valores humanos. As interações sociais, as concepções sobre o trabalho, o lazer, entre outros, são arremessados num turbilhão movimentado pela globalização e apoiados por robôs, sistemas especialistas, tecnologias da informação e técnicas de gestão.
Nesse cenário, a comunicação organizacional redescobriu seu papel, mas como todo conhecimento, pode ser um instrumento de esclarecimento ou manipulação. O fator esclarecimento está associado com outros métodos éticos e socialmente responsáveis que se vinculam às mudanças. Na outra extremidade, quando a comunicação é manipulativa, ela alimenta as novas formas de tortura no trabalho; em ambientes tirânicos, ela é concebida como uma mera “ferramenta” para o controle organizacional, além de amparar discursos vinculados à lógica da auto-exclusão. Há programas corporativos que apresentam a tese de que não seriam as empresas que excluem, a exclusão é causada pelos próprios empregados que não se adaptam ao ritmo acelerado das mudanças.
A propósito, esse é um dos maiores impactos contemporâneos; a imposição de velocidade aos métodos de trabalho. Esse deslocamento está presente nos sistemas produtivos, nas estratégias e na informação instantânea. Não há sintonia com as subjetividades num contexto em que as tecnologias incitam a reordenação e desprezam as culturas (BAPTISTA, 2006).
As organizações criaram a tortura do imediatismo; uma ardileza do conceito de flexibilização empresarial, um recurso subserviente ao mercado global.
Outras conseqüências dessas mudanças direcionam-se aos estreitamentos no ciclo de aprendizagem e desenvolvimento cognitivo, há uma contraposição aos métodos da assimilação tradicional de conceitos. Todos devem aprender rapidamente e, na mesma velocidade, renunciarem ao passado. Rompem-se os conhecimentos que são considerados, rapidamente, obsoletos na sociedade contemporânea.
Diante desses pressupostos, o objetivo principal deste artigo é apresentar uma visão panorâmica sobre os contextos organizacionais contemporâneos e as interdependências com a comunicação e a cultura. Para essa consecução, buscamos os pressupostos e pesquisas de autores como; Adler (2002), Antunes (2000), Aubert (2003), Baptista (1997, 2006, 2007), Bueno (2005), Chesneaux (1996), Trivinho (2001), Walton (1998), entre outros, para caracterizar essa tríplice influência.
Comunicaçao, cultura e tecnología
O intenso redesenho tecnológico gera impactos na cultura organizacional que, por sua vez, requerem estratégias comunicacionais para amenizar rejeições às mudanças. Há um aspecto fundamental nesse processo; a comunicação deve ser ética. Ela é mais do que uma simples informação ou um instrumento de controle e disciplina; necessita associar-se às transformações gradativas, respeitar os múltiplos clientes e vincular-se à Responsabilidade Social.
Entendemos que as empresas visam o lucro, portanto, a comunicação não será um mecanismo de benevolência, mas é capaz de garantir, juntos com as ações de gestão de pessoas e planejamento macro-estratégico, a continuidade de uma empresa e o apreço em direção de uma evolução no ambiente de trabalho. Assim, consideramos que uma organização avança, quando ela gere pessoas de forma inteligente, associa seus colaboradores com as tecnologias, investe em treinamento contínuo, abre os canais comunicacionais de forma efetiva e busca os pressupostos da participação no trabalho.
A importância da comunicação e cultura pode ser observada em todos os processos de aquisição tecnológica. Uma pesquisa realizada em empresas no Estado de São Paulo possibilitou a comprovação dessa tríplice dependência. Nas ações de reestruturação de tecnologias ocorrida nos finais dos anos 90, foram encontrados dois procedimentos em diferentes companhias: no primeiro, caracterizado como desenvolvimento contínuo, havia uma preocupação em relação à capacitação ininterrupta dos recursos humanos, nesse caso, possibilitava-se que os trabalhadores estivessem cognitivamente preparados para transições tecnológicas. No segundo, constituído de empresas mais lentas, as “estratégias” mais comuns eram as imposições para a mudança e a não observância da cultura estabelecida (BAPTISTA, 1997, 2007).
Em relação às empresas que respeitaram os valores, havia um estudo de clima e dos pressupostos culturais antes de se proceder as mudanças. Com apoio de dados sobre essas variáveis, tornaram-se estrategistas, éticas e responsáveis socialmente.2 Nesse tipo de ambiente, há uma absorção gradativa que garante a efetiva transformação. Em situação oposta, aquelas que utilizaram a mudança autoritária, foram morosas e demandaram maiores investimentos, pois seus métodos requeriam um rígido controle que, a propósito, destruíam as relações humanas.
A rigidez na mudança pode fomentar conflitos que estimulam as resistências comportamentais. Baptista (2006) cita, como exemplo, uma empresa que apregoava o slogan “nossos trabalhadores são o nosso principal patrimônio” porém, o local estava em alto nível de pressão e essa frase falaciosa ocasionava, na verdade, muitas dissonâncias contraproducentes.
Como a tentativa de exercer controle autoritário nem sempre garante o êxito, a percepção de engodo que os funcionários possuem pode comprometer a veracidade dos planos futuros. Concordo com Adler (2002) em relação à idéia de que, ao fazemos suposições sobre o que percebemos, tendemos em não redescobrir significados cada vez que encontramos uma situação similar. Nesse aspecto, o erro ou a falácia, torna “infecundo” o ambiente; a equipe amplia suas concepções aversivas e tornam-se poucos predispostos às estratégias comunicacionais sobre as necessárias mudanças.
Uma gestão competente é capaz de gerir a verdade
Para efetivamente gerir esse contexto, é essencial assimilar que há uma categórica confluência da comunicação com a cultura organizacional; ambas inter-relacionam-se devido às características sistêmicas (Littlejohn, 1988), orgânicas (Mattelart, 1994), e de processos, mas é com o desenvolvimento da microinformática e da automação que a cultura arraigou-se como base para a transição empresarial.
Mas onde está a cultura? Inicialmente, devemos buscar os conceitos fundamentais para dissecar essa complexidade. Para Hofstede (2003), dentre os muitos termos usados para descrever as manifestações da cultura, podemos reter quatro deles que cobrem o conceito de forma minuciosa: símbolos, heróis, rituais e valores. Para o autor, os símbolos são palavras, gestos, figuras ou objetos que transportam um significado particular que é apenas reconhecido pelos que partilham a cultura. Os heróis são pessoas, que possuem características altamente valorizadas numa determinada cultura e que por isso servem de modelo de comportamento. Os rituais são atividades coletivas, tecnicamente supérfluas, para atingir fins desejados, mas considerados essenciais em determinada cultura; formas de cumprimentar ou transmitir respeito aos outros, constituem alguns exemplos.
Conforme Deal e Kennedy (1992), os valores, por sua vez, são a essência de uma filosofia da empresa para alcançar o sucesso, eles provêem um senso de direção comum para todos os empregados e as diretrizes para o comportamento do dia-para-dia deles. São fórmulas que determinam (e ocasionalmente resultam disso) os tipos de heróis corporativos, os mitos, os rituais e as cerimônias da cultura.
Valendo-nos dos pressupostos Adler (2002) e Hofstede (2003) destacamos que as diferentes manifestações da cultura são decodificadas, assimiladas, questionadas e absorvidas mediante estratégias de gestão da imagem corporativa, a integração ao trabalho, as regras e suas formas de implementação, o fluxo de tarefas, a acessibilidade entre a base e o topo da hierarquia, os veículos de informação interna e suas formas de linguagem, ou seja, comunicação.
Portanto, são os sistemas comunicacionais que permitem que os funcionários percebam as dissonâncias, que por sua vez, deterioram as relações com a empresa. O que se vê pode refutar aquilo que se diz e resultar em desmotivação, ansiedade e conflitos intergrupais (BAPTISTA, 2006).
Conforme Bueno (2005),É preciso mudar o perfil da comunicação interna para que ela efetivamente assuma o seu caráter libertador. Isso não significa tornar mais eficazes os canais para a consolidação da hegemonia das chefias, como preconiza a literatura comprometida com a velha ideologia institucional, mas criar espaços de interação democráticos, verdadeiramente participativos, onde a divergência, com responsabilidade, seja assumida (BUENO, 2005, p. 24).
Diante desse conjunto de elementos, se as organizações não desenvolverem sistemas consonantes com os valores humanos, promoverão as novas torturas do trabalho caracterizadas pela velocidade imperativa.
Vivemos num mundo caracterizado por uma ditadura do tempo real, pela sociedade do zapping e dos clips nos quais vivem intensamente sem duração na busca de resultados de eficácia imediata (AUBERT, 2003). É uma corrida do mundo fugaz (CHESNEAUX, 1996), uma obsessão pela automatização e pela racionalização organizacional (LACOSTE, 2005).
O indivíduo “deve” absorver as idéias de uma organização que gera ansiedade através da velocidade de trabalho mensurada pelas oscilações do mercado. No entendimento de Aubert (2003) vivemos de ações mais imediatas numa aliança que se operaram entre a lógica do lucro e os métodos de gerenciamento associados à urgência.
Essas confluências de impactos tecnológicos levam Trivinho (2001) a afirmar que, Os novos códigos se caracterizam, sociologicamente, como dispositivos tecnoculturais de acesso à práxis instrumental na sociedade tecnológica. Em outras palavras, como uma senha geral de permissões, de direitos enfim, essas linguagens funcionam como gerenciadores da entrada tanto no mercado de trabalho, quanto na vivencia dos demais processos, como, por exemplo, a fruição dos novos bens culturais, que já proliferam de modo ostensivo, igualmente sem uma avaliação satisfatória por parte da reflexão teórica. Isso representa, no fundo, o acesso a uma nova simbólica, ou melhor, a um novo mundo tecnosimbólico, que envolve uma tecnoaculturação especifica do psiquismo humano, correspondente à era da informatização (TRIVINHO, P. 91, 2001).
Nessas circunstâncias, ressalta Chesneaux (1996), todos cedem à pressão estressante do imediato e somos agarrados pelo efêmero. A pressão da informação transforma a vida cotidiana em antecipação angustiada do dia seguinte, perdendo cada dia sua realidade viva e específica. As novas tecnologias se propõem a aumentar quase ao infinito nossas capacidades de produzir e de reproduzir, de gerar a paz e fazer guerra, de divertir-se ou de pensar” (CHESNEAUX, p. 110, 1996).
Na opinião de Chesnais (1996), a convergência das tecnologias de informática e de telecomunicações, bem como a introdução de tecnologias ligadas às comunicações por satélite, ao comando numérico e das fibras óticas, criaram condições para o estabelecimento de um sistema verdadeiramente mundial. Ainda segundo o mesmo autor, as transformações advindas, desde fins da década de 70, nas relações entre ciência, tecnologia e atividade industrial fizeram da tecnologia um fator de competitividade cujas características afetam praticamente todo o sistema.
Homem-máquina no cenário organizacional
Há inúmeros elementos que engendram os domínios das máquinas num contexto que, de acordo com Walton (1998), engloba robôs, movimentação de materiais, engenharia e planejamento de processos assistidos por computador, planejamento e controle, e gestão de sistemas de suporte e decisão.
No pretexto da sobrevivência num mercado global, valorizam-se as qualidades daqueles capazes de se adequarem aos preceitos atuais. As tecnologias redefinem as concepções nas organizações e contrapõem o cenário iniciado com a primeira Revolução Industrial. O termo revolução, a propósito, traz consigo, a essencial revisão daquilo que é vigente e estimula a geração de prognósticos, nem sempre pertinentes, sobre o futuro do trabalho. Landes (1998) ressalta que a palavra revolução pode evocar visões de mudança rápida, até brutal ou violenta. Pode significar também transformação fundamental ou profunda. Para alguns, destaca o autor, tem conotações progressistas, para outros as revoluções são intrinsecamente destrutivas. Todos esses e outros significados dependem de uma palavra que outrora significava simplesmente uma rotação no sentido literal.
Um breve olhar sobre a história mostra que as primeiras máquinas que alavancaram as fábricas do passado apresentaram estágios de evolução técnica mais longa em comparação aos fundamentados na microeletrônica. A distância entre um invento e outro favoreceu amplas adequações dentro e fora das organizações.
Segundo Landes (1998), o primeiro engenho a usar vapor para criar um vácuo e fazer funcionar uma bomba foi patenteado na Inglaterra por Thomas Savery em 1698; a primeira máquina a vapor propriamente dita (com pistão) foi a de Thomas Newcomen em 1705. Um longo período transcorreu antes de James Watt inventar uma máquina com condensador separado do cilindro (1768) cuja eficiência era suficientemente boa para produzir vapor fora das minas, nas novas cidades industriais; e mais de 15 anos foram necessários para adaptar a máquina ao movimento rotativo, de modo a poder impulsionar as rodas da indústria.
Esses fatos caracterizaram a primeira revolução, situada entre o final do século XVII e o início do século XIX que, conforme Schaff (1996) teve o grande mérito de substituir na produção a força física do homem pela energia das máquinas; primeiro pela utilização do vapor e mais adiante pela utilização da eletricidade.
Concordo com Vonnegut (1999) quando diz que estamos em meio ao processo de desvalorizar o pensamento humano, pois o ritmo das máquinas fundamentadas na microeletrônica e seus conseqüentes impactos nas técnicas de trabalho, não permitem espaços adequados de absorção e recomposição de novas subjetividades (BAPTISTA, 2006). A analogia com a primeira revolução está no salto qualitativo operado no desenvolvimento da tecnologia de produção que acabou por romper a continuidade dos avanços quantitativos que se iam acumulando nas tecnologias já existentes (SCHAFF, 1996, p. 22).
Mas as empresas não são ambientes de quietude, a despeito de todo o discurso de valorização humana, o lucro não cede espaço. A história, segundo Womack et al (1992), também revela que as primeiras modificações desenvolvidas por Ford no processo de trabalho não se limitaram a aperfeiçoar a peça intercambiável, como também aperfeiçoou o operário intercambiável.
A estratégia, mais dinheiro com menos pessoas, prosseguir-se-á nas novas etapas dos sistemas produtivos em que se implantam tecnologias com um ímpeto que causa rupturas nas tradicionais formas do desenvolvimento das tarefas. Para Chesneaux (1996) nem a máquina a vapor, nem o telefone, nem a eletricidade, muitas vezes invocados para celebrar a continuidade segura do progresso técnico, provocaram, na sua época, tal choque visceral e difuso.
Diante de tal situação, a classe que vive do trabalho sofre uma aguda crise que atinge não só a sua materialidade, mas tem profundas repercussões na sua subjetividade e, no íntimo inter-relacionamento destes níveis, afetou a sua forma de ser (ANTUNES, 2000). O computador, por exemplo, é evidenciado por Chesneaux (1996) como algo que surge, contando em pico-segundos e nano-segundos, na plenitude do controle racional dos ritmos e das seqüências de trabalho que aspiraram o fordismo e o taylorismo.
Assim, essas tecnologias impelem a reordenação, extrapolam espaços que antes eram considerados privados, controlam o tempo de lazer, criam o trabalho portátil, cingem os que são tragados e incitam a culpa de forma unilateral aos que são excluídos (Baptista, 2006).
Nesse novo darwinismo (Kurz, 1992), é preciso absorver tudo de forma rápida além de, conforme Lacoste (2005), exigir a mobilização de conhecimento e saberes múltiplos; os recursos cognitivos são condições essenciais para o êxito.
Considerações finais
A comunicação e a cultura devem ser repensadas num ambiente de alta tecnologia. É necessário redescobrir seu papel diante da intensa velocidade. Vivemos num sistema de mútuas interferências, mas que não auto-regula-se com a mesma rapidez da tecnologia; para efeito de evolução, nenhuma sociedade ou empresa poderia esperar por uma auto-regulação.
É fato que as novas tecnologias formam a “paisagem corporativa” e, a despeito de todos os problemas, não haverá retrocesso. Diante disso, o estudo dos impactos humanos que estão associados nesse processo, não devem funcionar como espasmos do pensamento, como a crítica pela crítica, como deleite intelectual.
Por fim, a integralidade do sistema comunicacional deve ser efetiva; afastar-se do discurso, da dissonância, da manipulação, da subserviência às empresas ausentes de Responsabilidade Social. Uma comunicação ética é possível, primeiramente, é preciso associá-la à cultura e à gestão competente de pessoas.
Bibliografia
# ADLER, J. A. International dimensions of organizational behavior. Toronto: South-Western, 2002.
# ANTUNES, R. Adeus ao Trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho.Cortez-UNICAMP: Campinas, 2000.
# AUBERT, N. Le culte de l´urgence. Paris: flamarion, 2003.
# BAPTISTA, R. D O processo de comunicação e clima organizacional na entrada de novas tecnologias. 1997, 157f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista, São Paulo, 1997.
# _________Trabalho e transitoriedade tecnológica: as compressões da mudança num contexto de globalização. In. ENCONTRO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA, 2006, Assis. Disponível em:http://www.assis.unesp.br/encontrosdepsicologia. Acesso em: 30 de ago. 2006.
# _________Será que a estagnação é um mecanismo de absorção e de recomposição da subjetividade? Disponível em: http://netart.incubadora.fapesp.br/portal/Members/rdbap/ guattari, Acesso em: 31 de ago. 2006.
# _________As dimensões da comunicação e da cultura organizacional em um contexto de renovação tecnológica. Revista Comunicação e Sociedade, São Bernardo do Campo, n. 46, p. 33-41, 2006.
# _________Comunicação e cultura organizacional: interfaces com as novas tecnologias. In: Anais do Encontro da União Latinoamericana de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura. Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2006.
# _________ Involuções Corporativas: perspectivas críticas sobre a gestão de pessoas, comunicação e cultura nas organizações. São Paulo: AllPrint, 2007.
# BUENO, W. C. Comunicação empresarial no Brasil: uma leitura crítica. São Paulo: All Print, 2005.
# CHESNAIS, F. A mundialização do capital. São Paulo: Xamã, 1996.
# CHESNEAUX, J. Modernidade-Mundo. Petrópolis: Vozes, 1996.
# DEAL, T. E; KENNEDY, A. A. Corporate cultures: The rites and rituals of corporate life. New York: Addison-Wesley, 1992.
# HOFSTEDE, G. Cultures and organizations: software for the mind. New York: McGraw-Hill, 2004.
# KURZ, R. O colapso da modernização: da derrocada do socialismo de caserna à crise da economia mundial. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 5º edição revista, 1999.
# LANDES, D. S. A riqueza e a pobreza das nações: por que algumas são tão ricas e outras tão pobres. Rio de Janeiro: Campus, 1998.
# LACOSTE, M. Peut-on travailler san communiquer ? In Borzeix, A.; Fraenkel, B. (Coord) Langage et Travail: communication, cognition, action. Paris, CNRS Editions, 2005.
# LITTLEJOHN, S. W. Fundamentos teóricos da comunicação humana. Rio de Janeiro: Guanabara, 1989.
# MORIN, E. Para sair do século XX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.
# MATTELART, A., MATTELART, M. A invenção da comunicação. Lisboa: Instituto Piaget, 1994.
# PIGNON, D., QUERZOLA, J. Ditadura e democracia na produção. IN: GORZ, A. Crítica da divisão do trabalho. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
# SCHAFF, A. A Sociedade Informática. São Paulo: Unesp/Brasiliense, 1996.
# TRIVINHO, E. O mal-estar da teoria: a condição crítica na sociedade tecnológica atual. Rio de Janeiro: Quartet, 2001.
# VONNEGUT, K. Jr. Player Piano. New York: Dial Press, 1999.
# WALTON, R. E. Tecnologia de informação: o uso de TI pelas empresas que obtêm vantagem competitiva, São Paulo: Atlas, 1998.
# WOMACK, J. P. et al. A máquina que mudou o mundo. Rio de Janeiro: Campus, 1992.
Fonte: Cibersociedade.net
As novas tecnologias redesenham o cenário organizacional e impactam sobre a cultura e os sistemas de trabalho. Atrelado a essas transformações, estão a globalização e as imposições da velocidade dos métodos produtivos, da pressão pela renovação contínua e da rápida obsolescência. Nesse cenário, a comunicação possibilita um redesenho dos processos evolutivos das empresas e passa a ocupar um espaço de elevada importância para a elaboração de estratégias organizacionais.
Introdução
Somos capazes de resistir às informações que não adaptam à nossa ideologia, percebendo essas informações não como informações, mas como trapaças ou mentiras. Edgar Morin, Para sair do século XX
A evolução tecnológica fomenta intensas transformações organizacionais que provocam impactos sobre os valores humanos. As interações sociais, as concepções sobre o trabalho, o lazer, entre outros, são arremessados num turbilhão movimentado pela globalização e apoiados por robôs, sistemas especialistas, tecnologias da informação e técnicas de gestão.
Nesse cenário, a comunicação organizacional redescobriu seu papel, mas como todo conhecimento, pode ser um instrumento de esclarecimento ou manipulação. O fator esclarecimento está associado com outros métodos éticos e socialmente responsáveis que se vinculam às mudanças. Na outra extremidade, quando a comunicação é manipulativa, ela alimenta as novas formas de tortura no trabalho; em ambientes tirânicos, ela é concebida como uma mera “ferramenta” para o controle organizacional, além de amparar discursos vinculados à lógica da auto-exclusão. Há programas corporativos que apresentam a tese de que não seriam as empresas que excluem, a exclusão é causada pelos próprios empregados que não se adaptam ao ritmo acelerado das mudanças.
A propósito, esse é um dos maiores impactos contemporâneos; a imposição de velocidade aos métodos de trabalho. Esse deslocamento está presente nos sistemas produtivos, nas estratégias e na informação instantânea. Não há sintonia com as subjetividades num contexto em que as tecnologias incitam a reordenação e desprezam as culturas (BAPTISTA, 2006).
As organizações criaram a tortura do imediatismo; uma ardileza do conceito de flexibilização empresarial, um recurso subserviente ao mercado global.
Outras conseqüências dessas mudanças direcionam-se aos estreitamentos no ciclo de aprendizagem e desenvolvimento cognitivo, há uma contraposição aos métodos da assimilação tradicional de conceitos. Todos devem aprender rapidamente e, na mesma velocidade, renunciarem ao passado. Rompem-se os conhecimentos que são considerados, rapidamente, obsoletos na sociedade contemporânea.
Diante desses pressupostos, o objetivo principal deste artigo é apresentar uma visão panorâmica sobre os contextos organizacionais contemporâneos e as interdependências com a comunicação e a cultura. Para essa consecução, buscamos os pressupostos e pesquisas de autores como; Adler (2002), Antunes (2000), Aubert (2003), Baptista (1997, 2006, 2007), Bueno (2005), Chesneaux (1996), Trivinho (2001), Walton (1998), entre outros, para caracterizar essa tríplice influência.
Comunicaçao, cultura e tecnología
O intenso redesenho tecnológico gera impactos na cultura organizacional que, por sua vez, requerem estratégias comunicacionais para amenizar rejeições às mudanças. Há um aspecto fundamental nesse processo; a comunicação deve ser ética. Ela é mais do que uma simples informação ou um instrumento de controle e disciplina; necessita associar-se às transformações gradativas, respeitar os múltiplos clientes e vincular-se à Responsabilidade Social.
Entendemos que as empresas visam o lucro, portanto, a comunicação não será um mecanismo de benevolência, mas é capaz de garantir, juntos com as ações de gestão de pessoas e planejamento macro-estratégico, a continuidade de uma empresa e o apreço em direção de uma evolução no ambiente de trabalho. Assim, consideramos que uma organização avança, quando ela gere pessoas de forma inteligente, associa seus colaboradores com as tecnologias, investe em treinamento contínuo, abre os canais comunicacionais de forma efetiva e busca os pressupostos da participação no trabalho.
A importância da comunicação e cultura pode ser observada em todos os processos de aquisição tecnológica. Uma pesquisa realizada em empresas no Estado de São Paulo possibilitou a comprovação dessa tríplice dependência. Nas ações de reestruturação de tecnologias ocorrida nos finais dos anos 90, foram encontrados dois procedimentos em diferentes companhias: no primeiro, caracterizado como desenvolvimento contínuo, havia uma preocupação em relação à capacitação ininterrupta dos recursos humanos, nesse caso, possibilitava-se que os trabalhadores estivessem cognitivamente preparados para transições tecnológicas. No segundo, constituído de empresas mais lentas, as “estratégias” mais comuns eram as imposições para a mudança e a não observância da cultura estabelecida (BAPTISTA, 1997, 2007).
Em relação às empresas que respeitaram os valores, havia um estudo de clima e dos pressupostos culturais antes de se proceder as mudanças. Com apoio de dados sobre essas variáveis, tornaram-se estrategistas, éticas e responsáveis socialmente.2 Nesse tipo de ambiente, há uma absorção gradativa que garante a efetiva transformação. Em situação oposta, aquelas que utilizaram a mudança autoritária, foram morosas e demandaram maiores investimentos, pois seus métodos requeriam um rígido controle que, a propósito, destruíam as relações humanas.
A rigidez na mudança pode fomentar conflitos que estimulam as resistências comportamentais. Baptista (2006) cita, como exemplo, uma empresa que apregoava o slogan “nossos trabalhadores são o nosso principal patrimônio” porém, o local estava em alto nível de pressão e essa frase falaciosa ocasionava, na verdade, muitas dissonâncias contraproducentes.
Como a tentativa de exercer controle autoritário nem sempre garante o êxito, a percepção de engodo que os funcionários possuem pode comprometer a veracidade dos planos futuros. Concordo com Adler (2002) em relação à idéia de que, ao fazemos suposições sobre o que percebemos, tendemos em não redescobrir significados cada vez que encontramos uma situação similar. Nesse aspecto, o erro ou a falácia, torna “infecundo” o ambiente; a equipe amplia suas concepções aversivas e tornam-se poucos predispostos às estratégias comunicacionais sobre as necessárias mudanças.
Uma gestão competente é capaz de gerir a verdade
Para efetivamente gerir esse contexto, é essencial assimilar que há uma categórica confluência da comunicação com a cultura organizacional; ambas inter-relacionam-se devido às características sistêmicas (Littlejohn, 1988), orgânicas (Mattelart, 1994), e de processos, mas é com o desenvolvimento da microinformática e da automação que a cultura arraigou-se como base para a transição empresarial.
Mas onde está a cultura? Inicialmente, devemos buscar os conceitos fundamentais para dissecar essa complexidade. Para Hofstede (2003), dentre os muitos termos usados para descrever as manifestações da cultura, podemos reter quatro deles que cobrem o conceito de forma minuciosa: símbolos, heróis, rituais e valores. Para o autor, os símbolos são palavras, gestos, figuras ou objetos que transportam um significado particular que é apenas reconhecido pelos que partilham a cultura. Os heróis são pessoas, que possuem características altamente valorizadas numa determinada cultura e que por isso servem de modelo de comportamento. Os rituais são atividades coletivas, tecnicamente supérfluas, para atingir fins desejados, mas considerados essenciais em determinada cultura; formas de cumprimentar ou transmitir respeito aos outros, constituem alguns exemplos.
Conforme Deal e Kennedy (1992), os valores, por sua vez, são a essência de uma filosofia da empresa para alcançar o sucesso, eles provêem um senso de direção comum para todos os empregados e as diretrizes para o comportamento do dia-para-dia deles. São fórmulas que determinam (e ocasionalmente resultam disso) os tipos de heróis corporativos, os mitos, os rituais e as cerimônias da cultura.
Valendo-nos dos pressupostos Adler (2002) e Hofstede (2003) destacamos que as diferentes manifestações da cultura são decodificadas, assimiladas, questionadas e absorvidas mediante estratégias de gestão da imagem corporativa, a integração ao trabalho, as regras e suas formas de implementação, o fluxo de tarefas, a acessibilidade entre a base e o topo da hierarquia, os veículos de informação interna e suas formas de linguagem, ou seja, comunicação.
Portanto, são os sistemas comunicacionais que permitem que os funcionários percebam as dissonâncias, que por sua vez, deterioram as relações com a empresa. O que se vê pode refutar aquilo que se diz e resultar em desmotivação, ansiedade e conflitos intergrupais (BAPTISTA, 2006).
Conforme Bueno (2005),É preciso mudar o perfil da comunicação interna para que ela efetivamente assuma o seu caráter libertador. Isso não significa tornar mais eficazes os canais para a consolidação da hegemonia das chefias, como preconiza a literatura comprometida com a velha ideologia institucional, mas criar espaços de interação democráticos, verdadeiramente participativos, onde a divergência, com responsabilidade, seja assumida (BUENO, 2005, p. 24).
Diante desse conjunto de elementos, se as organizações não desenvolverem sistemas consonantes com os valores humanos, promoverão as novas torturas do trabalho caracterizadas pela velocidade imperativa.
Vivemos num mundo caracterizado por uma ditadura do tempo real, pela sociedade do zapping e dos clips nos quais vivem intensamente sem duração na busca de resultados de eficácia imediata (AUBERT, 2003). É uma corrida do mundo fugaz (CHESNEAUX, 1996), uma obsessão pela automatização e pela racionalização organizacional (LACOSTE, 2005).
O indivíduo “deve” absorver as idéias de uma organização que gera ansiedade através da velocidade de trabalho mensurada pelas oscilações do mercado. No entendimento de Aubert (2003) vivemos de ações mais imediatas numa aliança que se operaram entre a lógica do lucro e os métodos de gerenciamento associados à urgência.
Essas confluências de impactos tecnológicos levam Trivinho (2001) a afirmar que, Os novos códigos se caracterizam, sociologicamente, como dispositivos tecnoculturais de acesso à práxis instrumental na sociedade tecnológica. Em outras palavras, como uma senha geral de permissões, de direitos enfim, essas linguagens funcionam como gerenciadores da entrada tanto no mercado de trabalho, quanto na vivencia dos demais processos, como, por exemplo, a fruição dos novos bens culturais, que já proliferam de modo ostensivo, igualmente sem uma avaliação satisfatória por parte da reflexão teórica. Isso representa, no fundo, o acesso a uma nova simbólica, ou melhor, a um novo mundo tecnosimbólico, que envolve uma tecnoaculturação especifica do psiquismo humano, correspondente à era da informatização (TRIVINHO, P. 91, 2001).
Nessas circunstâncias, ressalta Chesneaux (1996), todos cedem à pressão estressante do imediato e somos agarrados pelo efêmero. A pressão da informação transforma a vida cotidiana em antecipação angustiada do dia seguinte, perdendo cada dia sua realidade viva e específica. As novas tecnologias se propõem a aumentar quase ao infinito nossas capacidades de produzir e de reproduzir, de gerar a paz e fazer guerra, de divertir-se ou de pensar” (CHESNEAUX, p. 110, 1996).
Na opinião de Chesnais (1996), a convergência das tecnologias de informática e de telecomunicações, bem como a introdução de tecnologias ligadas às comunicações por satélite, ao comando numérico e das fibras óticas, criaram condições para o estabelecimento de um sistema verdadeiramente mundial. Ainda segundo o mesmo autor, as transformações advindas, desde fins da década de 70, nas relações entre ciência, tecnologia e atividade industrial fizeram da tecnologia um fator de competitividade cujas características afetam praticamente todo o sistema.
Homem-máquina no cenário organizacional
Há inúmeros elementos que engendram os domínios das máquinas num contexto que, de acordo com Walton (1998), engloba robôs, movimentação de materiais, engenharia e planejamento de processos assistidos por computador, planejamento e controle, e gestão de sistemas de suporte e decisão.
No pretexto da sobrevivência num mercado global, valorizam-se as qualidades daqueles capazes de se adequarem aos preceitos atuais. As tecnologias redefinem as concepções nas organizações e contrapõem o cenário iniciado com a primeira Revolução Industrial. O termo revolução, a propósito, traz consigo, a essencial revisão daquilo que é vigente e estimula a geração de prognósticos, nem sempre pertinentes, sobre o futuro do trabalho. Landes (1998) ressalta que a palavra revolução pode evocar visões de mudança rápida, até brutal ou violenta. Pode significar também transformação fundamental ou profunda. Para alguns, destaca o autor, tem conotações progressistas, para outros as revoluções são intrinsecamente destrutivas. Todos esses e outros significados dependem de uma palavra que outrora significava simplesmente uma rotação no sentido literal.
Um breve olhar sobre a história mostra que as primeiras máquinas que alavancaram as fábricas do passado apresentaram estágios de evolução técnica mais longa em comparação aos fundamentados na microeletrônica. A distância entre um invento e outro favoreceu amplas adequações dentro e fora das organizações.
Segundo Landes (1998), o primeiro engenho a usar vapor para criar um vácuo e fazer funcionar uma bomba foi patenteado na Inglaterra por Thomas Savery em 1698; a primeira máquina a vapor propriamente dita (com pistão) foi a de Thomas Newcomen em 1705. Um longo período transcorreu antes de James Watt inventar uma máquina com condensador separado do cilindro (1768) cuja eficiência era suficientemente boa para produzir vapor fora das minas, nas novas cidades industriais; e mais de 15 anos foram necessários para adaptar a máquina ao movimento rotativo, de modo a poder impulsionar as rodas da indústria.
Esses fatos caracterizaram a primeira revolução, situada entre o final do século XVII e o início do século XIX que, conforme Schaff (1996) teve o grande mérito de substituir na produção a força física do homem pela energia das máquinas; primeiro pela utilização do vapor e mais adiante pela utilização da eletricidade.
Concordo com Vonnegut (1999) quando diz que estamos em meio ao processo de desvalorizar o pensamento humano, pois o ritmo das máquinas fundamentadas na microeletrônica e seus conseqüentes impactos nas técnicas de trabalho, não permitem espaços adequados de absorção e recomposição de novas subjetividades (BAPTISTA, 2006). A analogia com a primeira revolução está no salto qualitativo operado no desenvolvimento da tecnologia de produção que acabou por romper a continuidade dos avanços quantitativos que se iam acumulando nas tecnologias já existentes (SCHAFF, 1996, p. 22).
Mas as empresas não são ambientes de quietude, a despeito de todo o discurso de valorização humana, o lucro não cede espaço. A história, segundo Womack et al (1992), também revela que as primeiras modificações desenvolvidas por Ford no processo de trabalho não se limitaram a aperfeiçoar a peça intercambiável, como também aperfeiçoou o operário intercambiável.
A estratégia, mais dinheiro com menos pessoas, prosseguir-se-á nas novas etapas dos sistemas produtivos em que se implantam tecnologias com um ímpeto que causa rupturas nas tradicionais formas do desenvolvimento das tarefas. Para Chesneaux (1996) nem a máquina a vapor, nem o telefone, nem a eletricidade, muitas vezes invocados para celebrar a continuidade segura do progresso técnico, provocaram, na sua época, tal choque visceral e difuso.
Diante de tal situação, a classe que vive do trabalho sofre uma aguda crise que atinge não só a sua materialidade, mas tem profundas repercussões na sua subjetividade e, no íntimo inter-relacionamento destes níveis, afetou a sua forma de ser (ANTUNES, 2000). O computador, por exemplo, é evidenciado por Chesneaux (1996) como algo que surge, contando em pico-segundos e nano-segundos, na plenitude do controle racional dos ritmos e das seqüências de trabalho que aspiraram o fordismo e o taylorismo.
Assim, essas tecnologias impelem a reordenação, extrapolam espaços que antes eram considerados privados, controlam o tempo de lazer, criam o trabalho portátil, cingem os que são tragados e incitam a culpa de forma unilateral aos que são excluídos (Baptista, 2006).
Nesse novo darwinismo (Kurz, 1992), é preciso absorver tudo de forma rápida além de, conforme Lacoste (2005), exigir a mobilização de conhecimento e saberes múltiplos; os recursos cognitivos são condições essenciais para o êxito.
Considerações finais
A comunicação e a cultura devem ser repensadas num ambiente de alta tecnologia. É necessário redescobrir seu papel diante da intensa velocidade. Vivemos num sistema de mútuas interferências, mas que não auto-regula-se com a mesma rapidez da tecnologia; para efeito de evolução, nenhuma sociedade ou empresa poderia esperar por uma auto-regulação.
É fato que as novas tecnologias formam a “paisagem corporativa” e, a despeito de todos os problemas, não haverá retrocesso. Diante disso, o estudo dos impactos humanos que estão associados nesse processo, não devem funcionar como espasmos do pensamento, como a crítica pela crítica, como deleite intelectual.
Por fim, a integralidade do sistema comunicacional deve ser efetiva; afastar-se do discurso, da dissonância, da manipulação, da subserviência às empresas ausentes de Responsabilidade Social. Uma comunicação ética é possível, primeiramente, é preciso associá-la à cultura e à gestão competente de pessoas.
Bibliografia
# ADLER, J. A. International dimensions of organizational behavior. Toronto: South-Western, 2002.
# ANTUNES, R. Adeus ao Trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho.Cortez-UNICAMP: Campinas, 2000.
# AUBERT, N. Le culte de l´urgence. Paris: flamarion, 2003.
# BAPTISTA, R. D O processo de comunicação e clima organizacional na entrada de novas tecnologias. 1997, 157f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista, São Paulo, 1997.
# _________Trabalho e transitoriedade tecnológica: as compressões da mudança num contexto de globalização. In. ENCONTRO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA, 2006, Assis. Disponível em:http://www.assis.unesp.br/encontrosdepsicologia. Acesso em: 30 de ago. 2006.
# _________Será que a estagnação é um mecanismo de absorção e de recomposição da subjetividade? Disponível em: http://netart.incubadora.fapesp.br/portal/Members/rdbap/ guattari, Acesso em: 31 de ago. 2006.
# _________As dimensões da comunicação e da cultura organizacional em um contexto de renovação tecnológica. Revista Comunicação e Sociedade, São Bernardo do Campo, n. 46, p. 33-41, 2006.
# _________Comunicação e cultura organizacional: interfaces com as novas tecnologias. In: Anais do Encontro da União Latinoamericana de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura. Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2006.
# _________ Involuções Corporativas: perspectivas críticas sobre a gestão de pessoas, comunicação e cultura nas organizações. São Paulo: AllPrint, 2007.
# BUENO, W. C. Comunicação empresarial no Brasil: uma leitura crítica. São Paulo: All Print, 2005.
# CHESNAIS, F. A mundialização do capital. São Paulo: Xamã, 1996.
# CHESNEAUX, J. Modernidade-Mundo. Petrópolis: Vozes, 1996.
# DEAL, T. E; KENNEDY, A. A. Corporate cultures: The rites and rituals of corporate life. New York: Addison-Wesley, 1992.
# HOFSTEDE, G. Cultures and organizations: software for the mind. New York: McGraw-Hill, 2004.
# KURZ, R. O colapso da modernização: da derrocada do socialismo de caserna à crise da economia mundial. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 5º edição revista, 1999.
# LANDES, D. S. A riqueza e a pobreza das nações: por que algumas são tão ricas e outras tão pobres. Rio de Janeiro: Campus, 1998.
# LACOSTE, M. Peut-on travailler san communiquer ? In Borzeix, A.; Fraenkel, B. (Coord) Langage et Travail: communication, cognition, action. Paris, CNRS Editions, 2005.
# LITTLEJOHN, S. W. Fundamentos teóricos da comunicação humana. Rio de Janeiro: Guanabara, 1989.
# MORIN, E. Para sair do século XX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.
# MATTELART, A., MATTELART, M. A invenção da comunicação. Lisboa: Instituto Piaget, 1994.
# PIGNON, D., QUERZOLA, J. Ditadura e democracia na produção. IN: GORZ, A. Crítica da divisão do trabalho. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
# SCHAFF, A. A Sociedade Informática. São Paulo: Unesp/Brasiliense, 1996.
# TRIVINHO, E. O mal-estar da teoria: a condição crítica na sociedade tecnológica atual. Rio de Janeiro: Quartet, 2001.
# VONNEGUT, K. Jr. Player Piano. New York: Dial Press, 1999.
# WALTON, R. E. Tecnologia de informação: o uso de TI pelas empresas que obtêm vantagem competitiva, São Paulo: Atlas, 1998.
# WOMACK, J. P. et al. A máquina que mudou o mundo. Rio de Janeiro: Campus, 1992.
Fonte: Cibersociedade.net
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Ciência em realidade virtual
Por Fabio Reynol
Um matemático resolve equações mergulhado em uma piscina virtual de números e gráficos, na qual ele pode andar e observar os resultados que são construídos à sua volta. Um químico testa novas interações moleculares movendo manualmente átomos do tamanho de bolas de tênis, que ficam ao seu redor e reproduzem em três dimensões as substâncias formadas.
Esses exemplos futuristas são a solução imaginada por George Djorgovski, professor de astronomia do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech, na sigla em inglês), dos Estados Unidos, para que pesquisadores consigam lidar com os dados cada vez mais complexos que a ciência vem produzindo em quantidade gigantesca.
Durante o Faculty Summit 2010 América Latina, evento promovido pela FAPESP e pela Microsoft Research, realizado de 12 a 14 de maio, no Guarujá (SP), Djorgovski explicou que a quantidade e a complexidade dos dados científicos ultrapassou os limites da capacidade humana para entendê-los e até mesmo para observá-los.
“É preciso admitir que a maior parte dos dados levantados hoje pela ciência jamais serão vistos por olhos humanos. É simplesmente impossível”, disse Djorgovski.
O pesquisador usou como exemplos trabalhos de sua própria área de atuação, a astronomia. Telescópios monitorados por sistemas automáticos registram diariamente enormes quantidades de dados que não poderiam ser totalmente analisados nem se toda a população da Terra fosse formada por astrônomos, de acordo com Djorgovski.
O mesmo acontece com outras áreas da ciência que trabalham com grandes quantidades de informações, como é o caso dos estudos sobre a biodiversidade e a climatologia. Além de enorme, esse banco de dados está dobrando de tamanho a cada ano e meio.
“A tecnologia da informação é uma enorme revolução que ainda está em andamento. Ela é muito maior que a Revolução Industrial e só é comparável à imprensa de Gutemberg. Essa revolução tem mudado até os paradigmas científicos vigentes”, declarou o pesquisador.
“Armas de instrução de massa”
Ele explica que as ferramentas, os dados e até os métodos utilizados pela ciência migraram para o mundo virtual e agora só podem ser trabalhados nele. “Com isso, a web tem potencial para transformar todos os níveis da educação. É uma verdadeira arma de instrução em massa”, ressaltou fazendo um trocadilho com o termo militar.
“Ferramentas de pesquisa de última geração podem ser utilizadas por qualquer pessoa do mundo com acesso banda larga à internet”, afirmou Djorgovski. Como exemplo, o pesquisador falou que países que não possuem telescópios de grande porte podem analisar e ainda fazer descobertas com imagens feitas pelos melhores e mais potentes equipamentos disponíveis no mundo.
No entanto, trabalhar a educação também envolve o processamento de grande quantidade de informações. Essa montanha de dados a ser explorada levou o pesquisador a questionar a utilidade de uma informação que não pode ser analisada.
Nesse sentido, Djorgovski considera tão importante quanto a coleta de dados, os processos subsequentes que vão selecionar o que for considerado relevante e lhes dar sentido. São os trabalhos de armazenamento, mineração e interpretação de dados, etapas que também estão ficando cada vez mais a cargo das máquinas.
Além da quantidade, também a complexidade das informações está ultrapassando a capacidade humana de entendimento. “Podemos imaginar um modelo de uma, duas ou três dimensões. Mas um universo formado por 100 dimensões é impossível. Você poderá entender matematicamente a sua formação, mas jamais conseguirá imaginá-lo”, desafiou o astrônomo.
Mesmo assim, ele acredita que ainda há espaço para que raciocínio humano amplie sua capacidade, contanto que receba uma ajuda externa: a da realidade virtual. “A tecnologia desenvolvida para os games poderá ajudar o pesquisadores a ter maior compreensão de seu objeto de pesquisa, ao proporcionar uma visualização que o envolve completamente”, afirmou ilustrando com os exemplos do matemático e do químico, citados acima.
Para Djorgovski, um dos grandes problemas da ciência atual consiste em lidar com uma complexidade crescente de informações. Como solução, o pesquisador aposta no desenvolvimento de novos sistemas de inteligência artificial. “As novas gerações de inteligência artificial estão evoluindo de maneira mais madura. Elas não emulam a inteligência humana, como faziam as primeiras versões. Com isso conseguem trabalhar dados mais complexos”, disse.
A chave para essas soluções, segundo o astrônomo, é a ciência da computação. “Ela representa para o século 21 o que a matemática foi para as ciências dos séculos 17, 18 e 19”, disse afirmando que a disciplina é ao mesmo tempo a “cola” e o “lubrificante” das ciências atuais.
Agência: Fapesp
Um matemático resolve equações mergulhado em uma piscina virtual de números e gráficos, na qual ele pode andar e observar os resultados que são construídos à sua volta. Um químico testa novas interações moleculares movendo manualmente átomos do tamanho de bolas de tênis, que ficam ao seu redor e reproduzem em três dimensões as substâncias formadas.
Esses exemplos futuristas são a solução imaginada por George Djorgovski, professor de astronomia do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech, na sigla em inglês), dos Estados Unidos, para que pesquisadores consigam lidar com os dados cada vez mais complexos que a ciência vem produzindo em quantidade gigantesca.
Durante o Faculty Summit 2010 América Latina, evento promovido pela FAPESP e pela Microsoft Research, realizado de 12 a 14 de maio, no Guarujá (SP), Djorgovski explicou que a quantidade e a complexidade dos dados científicos ultrapassou os limites da capacidade humana para entendê-los e até mesmo para observá-los.
“É preciso admitir que a maior parte dos dados levantados hoje pela ciência jamais serão vistos por olhos humanos. É simplesmente impossível”, disse Djorgovski.
O pesquisador usou como exemplos trabalhos de sua própria área de atuação, a astronomia. Telescópios monitorados por sistemas automáticos registram diariamente enormes quantidades de dados que não poderiam ser totalmente analisados nem se toda a população da Terra fosse formada por astrônomos, de acordo com Djorgovski.
O mesmo acontece com outras áreas da ciência que trabalham com grandes quantidades de informações, como é o caso dos estudos sobre a biodiversidade e a climatologia. Além de enorme, esse banco de dados está dobrando de tamanho a cada ano e meio.
“A tecnologia da informação é uma enorme revolução que ainda está em andamento. Ela é muito maior que a Revolução Industrial e só é comparável à imprensa de Gutemberg. Essa revolução tem mudado até os paradigmas científicos vigentes”, declarou o pesquisador.
“Armas de instrução de massa”
Ele explica que as ferramentas, os dados e até os métodos utilizados pela ciência migraram para o mundo virtual e agora só podem ser trabalhados nele. “Com isso, a web tem potencial para transformar todos os níveis da educação. É uma verdadeira arma de instrução em massa”, ressaltou fazendo um trocadilho com o termo militar.
“Ferramentas de pesquisa de última geração podem ser utilizadas por qualquer pessoa do mundo com acesso banda larga à internet”, afirmou Djorgovski. Como exemplo, o pesquisador falou que países que não possuem telescópios de grande porte podem analisar e ainda fazer descobertas com imagens feitas pelos melhores e mais potentes equipamentos disponíveis no mundo.
No entanto, trabalhar a educação também envolve o processamento de grande quantidade de informações. Essa montanha de dados a ser explorada levou o pesquisador a questionar a utilidade de uma informação que não pode ser analisada.
Nesse sentido, Djorgovski considera tão importante quanto a coleta de dados, os processos subsequentes que vão selecionar o que for considerado relevante e lhes dar sentido. São os trabalhos de armazenamento, mineração e interpretação de dados, etapas que também estão ficando cada vez mais a cargo das máquinas.
Além da quantidade, também a complexidade das informações está ultrapassando a capacidade humana de entendimento. “Podemos imaginar um modelo de uma, duas ou três dimensões. Mas um universo formado por 100 dimensões é impossível. Você poderá entender matematicamente a sua formação, mas jamais conseguirá imaginá-lo”, desafiou o astrônomo.
Mesmo assim, ele acredita que ainda há espaço para que raciocínio humano amplie sua capacidade, contanto que receba uma ajuda externa: a da realidade virtual. “A tecnologia desenvolvida para os games poderá ajudar o pesquisadores a ter maior compreensão de seu objeto de pesquisa, ao proporcionar uma visualização que o envolve completamente”, afirmou ilustrando com os exemplos do matemático e do químico, citados acima.
Para Djorgovski, um dos grandes problemas da ciência atual consiste em lidar com uma complexidade crescente de informações. Como solução, o pesquisador aposta no desenvolvimento de novos sistemas de inteligência artificial. “As novas gerações de inteligência artificial estão evoluindo de maneira mais madura. Elas não emulam a inteligência humana, como faziam as primeiras versões. Com isso conseguem trabalhar dados mais complexos”, disse.
A chave para essas soluções, segundo o astrônomo, é a ciência da computação. “Ela representa para o século 21 o que a matemática foi para as ciências dos séculos 17, 18 e 19”, disse afirmando que a disciplina é ao mesmo tempo a “cola” e o “lubrificante” das ciências atuais.
Agência: Fapesp
terça-feira, 11 de maio de 2010
Videogame que ensina física
Por Fábio Reynol
Uma espaçonave de tamanho subatômico tem a missão de capturar partículas, identificá-las e com elas montar estruturas atômicas em outro planeta. Essa é parte da missão do Sprace Game , um jogo de computador projetado por físicos do Centro Regional de Análise de São Paulo (Sprace) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) com o objetivo de transmitir conceitos de física de partículas para o público leigo.
O desenvolvimento do videogame foi financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e é patrocinado pelo Sprace, centro financiado pela FAPESP e que é ligado ao Instituto de Física Teórica (IFT) do campus da Unesp da Barra Funda, na capital paulista.
Na cerimônia de lançamento, realizada na manhã de segunda-feira (10), o professor do Instituto de Física Teórica da Unesp Sérgio Ferraz Novaes, coordenador do Sprace, contou que o jogo faz parte de um esforço de levar aos alunos de ensino médio do país informações atuais sobre física de partículas.
“As informações escolares sobre estrutura da matéria estão defasadas em quase um século”, declarou Novaes através de um sistema de vídeoconferência. O professor falou aos jornalistas a partir do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern), em Genebra, Suíça, onde participa do experimento CMS (Solenoide Múon Compacto, na sigla em inglês).
Para mostrar aos estudantes que os átomos são muito mais do que somente prótons, nêutrons e elétrons, a equipe do IFT enviou a todas as escolas brasileiras do ensino médio cartazes didáticos apresentando as demais partículas subatômicas.
“Porém, os cartazes atingem somente os interessados em física, enquanto que o game alcança muito mais jovens”, afirmou o designer do Sprace Game, Einar Saukas, da Summa Technology+Business, empresa que produziu o jogo. O desenvolvimento do game ficou sob a responsabilidade da empresa Black Widow Games Brasil, com a qual Saukas também está envolvido.
Projetado em linguagem Java, o Sprace Game consegue rodar em qualquer computador com sistemas operacionais Windows, Linus, ou Mac. O programador do jogo, Ulisses Bebianno de Mello, da Black Widow, explicou à Agência FAPESP que há três versões de resolução para que até máquinas um pouco mais antigas possam receber o jogo.
“Conseguimos rodar a versão mais básica em um Pentium 1,3Ghz com 512M de memória RAM, acreditamos que a configuração mínima para o jogo seja essa”, disse Mello. Por funcionar em plataformas enxutas, o Sprace Game pode servir como ferramenta de ensino em escolas e instituições com poucos recursos, necessitando apenas do acesso à internet. O jogo é gratuito e pode ser acessado na página do Sprace: Sprace Game
Em busca de partículas
Ao passar pelas quatro fases do Sprace Game, o jogador tem que capturar com sua espaçonave partículas subatômicas; levá-las a um laboratório para que sejam identificadas; descobrir do que são formadas as partículas compostas chamadas de hádrons e recombinar quarks para formar prótons e nêutrons.
Com eles, o jogador consegue montar núcleos atômicos de hidrogênio e oxigênio, a fim de produzir um recurso fundamental para a colonização do planeta explorado, a água.
Uma das fases mais interessantes é a segunda, na qual o jogador deve encontrar e perseguir a partícula tau e observar o seu decaimento, que é a decomposição em outras subpartículas no fim de seu tempo de vida. São essas subpartículas que o jogador deverá capturar. “Isso ajuda a explicar o conceito do decaimento”, disse Saukas.
O designer revelou que um dos grandes desafios do projeto foi criar um jogo que proporcionasse entretenimento sem perder a precisão científica. “Não podíamos fazer um jogo somente divertido e que tivesse incorreções científicas, nem fazer algo muito preciso e que fosse chato de jogar”, afirmou.
O produto final foi testado e aprovado por alunos do ensino médio participantes do Master Class: Hands on Particle Physics evento internacional cuja etapa paulista foi realizada em fevereiro pela Unesp. “Os estudantes tiveram duas horas para jogar, mas depois desse tempo ainda queriam continuar jogando”, contou Saukas.
O sucesso inicial demonstra o acerto na escolha do jogo eletrônico como mídia para divulgar a física de partículas, segundo acredita o professor Novaes. Para ele, trata-se de conceitos intrincados e que precisam ser repetidos para que sejam assimilados. “Filmes, livros e quadrinhos já foram feitos com esse objetivo, mas o videogame é muito mais eficaz nesse aspecto”, declarou o professor.
Repercussão internacional
O professor da Unesp disse que o Sprace Game já tem despertado o interesse de outros países. Uma versão em inglês está sendo finalizada para dar origem a traduções para outros idiomas.
Pesquisadores e divulgadores científicos da França, Áustria, Portugal, República Tcheca e Estados Unidos entraram em contato com Novaes para conversar sobre o jogo, além de profissionais de divulgação científica da Comunidade Europeia.
O professor Helio Takai, do Brookhaven National Laboratory, de Upton, nos Estados Unidos, que também participou da videoconferência do lançamento do Sprace, afirmou que o jogo poderá reduzir a defasagem do ensino de física de partículas que também existe naquele país.
Como no Brasil, o ensino norte-americano até o nível médio repassa conceitos da física descobertos até o início do século 20. Desde então, experimentos realizados em aceleradores de partículas revelaram que prótons e nêutrons são compostos de quarks, partes ainda menores.
Além dos quarks, que se dividem em seis tipos (up, down, strange, charm, bottom e top), também foram descobertos os léptons (elétron, múon, tau e seus três respectivos neutrinos) e as partículas responsáveis pelas interações forte, fraca e eletromagnética (glúon, W, Z e fóton). Enriquecer os conhecimentos de física de estudantes do ensino médio com essas informações mais atualizadas é o objetivo principal do Sprace Game.
“Aqui nos Estados Unidos, as agências de pesquisa valorizam muito as atividades educacionais. Da mesma forma, no Brasil, iniciativas como o Sprace são uma maneira de retribuir à população os investimentos públicos em pesquisa”, falou Takai na cerimônia de lançamento.
Novaes disse que um colega resumiu o ensino de física nesses termos: “Um professor do século 20 ensina física do século 19 para um estudante do século 21”. Para o professor da Unesp, o Sprace Game procura levar informações contemporâneas para estudantes do século 21, por meio de uma mídia moderna.
Agência Fapesp
Uma espaçonave de tamanho subatômico tem a missão de capturar partículas, identificá-las e com elas montar estruturas atômicas em outro planeta. Essa é parte da missão do Sprace Game , um jogo de computador projetado por físicos do Centro Regional de Análise de São Paulo (Sprace) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) com o objetivo de transmitir conceitos de física de partículas para o público leigo.
O desenvolvimento do videogame foi financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e é patrocinado pelo Sprace, centro financiado pela FAPESP e que é ligado ao Instituto de Física Teórica (IFT) do campus da Unesp da Barra Funda, na capital paulista.
Na cerimônia de lançamento, realizada na manhã de segunda-feira (10), o professor do Instituto de Física Teórica da Unesp Sérgio Ferraz Novaes, coordenador do Sprace, contou que o jogo faz parte de um esforço de levar aos alunos de ensino médio do país informações atuais sobre física de partículas.
“As informações escolares sobre estrutura da matéria estão defasadas em quase um século”, declarou Novaes através de um sistema de vídeoconferência. O professor falou aos jornalistas a partir do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern), em Genebra, Suíça, onde participa do experimento CMS (Solenoide Múon Compacto, na sigla em inglês).
Para mostrar aos estudantes que os átomos são muito mais do que somente prótons, nêutrons e elétrons, a equipe do IFT enviou a todas as escolas brasileiras do ensino médio cartazes didáticos apresentando as demais partículas subatômicas.
“Porém, os cartazes atingem somente os interessados em física, enquanto que o game alcança muito mais jovens”, afirmou o designer do Sprace Game, Einar Saukas, da Summa Technology+Business, empresa que produziu o jogo. O desenvolvimento do game ficou sob a responsabilidade da empresa Black Widow Games Brasil, com a qual Saukas também está envolvido.
Projetado em linguagem Java, o Sprace Game consegue rodar em qualquer computador com sistemas operacionais Windows, Linus, ou Mac. O programador do jogo, Ulisses Bebianno de Mello, da Black Widow, explicou à Agência FAPESP que há três versões de resolução para que até máquinas um pouco mais antigas possam receber o jogo.
“Conseguimos rodar a versão mais básica em um Pentium 1,3Ghz com 512M de memória RAM, acreditamos que a configuração mínima para o jogo seja essa”, disse Mello. Por funcionar em plataformas enxutas, o Sprace Game pode servir como ferramenta de ensino em escolas e instituições com poucos recursos, necessitando apenas do acesso à internet. O jogo é gratuito e pode ser acessado na página do Sprace: Sprace Game
Em busca de partículas
Ao passar pelas quatro fases do Sprace Game, o jogador tem que capturar com sua espaçonave partículas subatômicas; levá-las a um laboratório para que sejam identificadas; descobrir do que são formadas as partículas compostas chamadas de hádrons e recombinar quarks para formar prótons e nêutrons.
Com eles, o jogador consegue montar núcleos atômicos de hidrogênio e oxigênio, a fim de produzir um recurso fundamental para a colonização do planeta explorado, a água.
Uma das fases mais interessantes é a segunda, na qual o jogador deve encontrar e perseguir a partícula tau e observar o seu decaimento, que é a decomposição em outras subpartículas no fim de seu tempo de vida. São essas subpartículas que o jogador deverá capturar. “Isso ajuda a explicar o conceito do decaimento”, disse Saukas.
O designer revelou que um dos grandes desafios do projeto foi criar um jogo que proporcionasse entretenimento sem perder a precisão científica. “Não podíamos fazer um jogo somente divertido e que tivesse incorreções científicas, nem fazer algo muito preciso e que fosse chato de jogar”, afirmou.
O produto final foi testado e aprovado por alunos do ensino médio participantes do Master Class: Hands on Particle Physics evento internacional cuja etapa paulista foi realizada em fevereiro pela Unesp. “Os estudantes tiveram duas horas para jogar, mas depois desse tempo ainda queriam continuar jogando”, contou Saukas.
O sucesso inicial demonstra o acerto na escolha do jogo eletrônico como mídia para divulgar a física de partículas, segundo acredita o professor Novaes. Para ele, trata-se de conceitos intrincados e que precisam ser repetidos para que sejam assimilados. “Filmes, livros e quadrinhos já foram feitos com esse objetivo, mas o videogame é muito mais eficaz nesse aspecto”, declarou o professor.
Repercussão internacional
O professor da Unesp disse que o Sprace Game já tem despertado o interesse de outros países. Uma versão em inglês está sendo finalizada para dar origem a traduções para outros idiomas.
Pesquisadores e divulgadores científicos da França, Áustria, Portugal, República Tcheca e Estados Unidos entraram em contato com Novaes para conversar sobre o jogo, além de profissionais de divulgação científica da Comunidade Europeia.
O professor Helio Takai, do Brookhaven National Laboratory, de Upton, nos Estados Unidos, que também participou da videoconferência do lançamento do Sprace, afirmou que o jogo poderá reduzir a defasagem do ensino de física de partículas que também existe naquele país.
Como no Brasil, o ensino norte-americano até o nível médio repassa conceitos da física descobertos até o início do século 20. Desde então, experimentos realizados em aceleradores de partículas revelaram que prótons e nêutrons são compostos de quarks, partes ainda menores.
Além dos quarks, que se dividem em seis tipos (up, down, strange, charm, bottom e top), também foram descobertos os léptons (elétron, múon, tau e seus três respectivos neutrinos) e as partículas responsáveis pelas interações forte, fraca e eletromagnética (glúon, W, Z e fóton). Enriquecer os conhecimentos de física de estudantes do ensino médio com essas informações mais atualizadas é o objetivo principal do Sprace Game.
“Aqui nos Estados Unidos, as agências de pesquisa valorizam muito as atividades educacionais. Da mesma forma, no Brasil, iniciativas como o Sprace são uma maneira de retribuir à população os investimentos públicos em pesquisa”, falou Takai na cerimônia de lançamento.
Novaes disse que um colega resumiu o ensino de física nesses termos: “Um professor do século 20 ensina física do século 19 para um estudante do século 21”. Para o professor da Unesp, o Sprace Game procura levar informações contemporâneas para estudantes do século 21, por meio de uma mídia moderna.
Agência Fapesp
domingo, 9 de maio de 2010
Redes de inclusão
Por Alex Sander Alcântara
A discussão sobre pobreza quase sempre esbarra nos indicadores de renda, que explicam apenas uma das facetas do problema. Se duas pessoas tiveram acessos diferenciados a serviços públicos como educação e saúde, por exemplo – embora possuam a mesma renda nominal –, uma delas pode ser considerada mais pobre. Além disso, se ela estiver isolada espacialmente, será mais segregada do que a outra.
Pela renda a pobreza até pode ser atenuada, mas, por outro lado, a desigualdade não, pois é reproduzida de várias outras formas. Pesquisas feitas no Centro de Estudos da Metrópole (CEM) – um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) da FAPESP e também um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) – têm se dedicado cada vez mais a ampliar essa percepção.
Um dos eixos de estudo foca na relação entre redes sociais e pobreza e mostra que a desigualdade está presente também nas primeiras. Uma das hipóteses sugere que, além da renda, a sociabilidade – relações familiares, de amizade no trabalho ou na vizinhança, na igreja, associações, entre outras – tem grande impacto nas condições de vida.
Um estudo conduzido por Eduardo Marques, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do CEM, tem indicado que membros de redes com grande homofilia – com parceiros de contato com mesmo perfil socioeconômico e demográfico – têm maior dificuldade para conseguir um emprego, por exemplo.
“A pobreza é multidimensional e articula vários elementos sociais. Até agora, nossas análises sugerem que redes sociais de pessoas pobres tendem a ser menores, menos diversas e mais locais do que as da classe média. Mas essa constatação pode ser observada também entre os mais desfavorecidos, explicando por que alguns indivíduos são mais pobres do que outros com mesma renda”, disse Marques, coordenador da pesquisa, à Agência FAPESP.
A pesquisa sobre redes sociais – que conta com a participação de duas doutorandas e uma mestranda – foi apresentada durante o Seminário Internacional Metrópole e Desigualdade, realizado em março último.
O estudo de campo colheu dados de redes pessoais de indivíduos pobres de São Paulo e Salvador e comparou com uma pequena amostra da classe média. Foram cerca de 362 casos de pessoas pobres (sendo 209 de sete regiões em São Paulo e 153 de cinco regiões em Salvador) e 30 de classe média.
De acordo com Marques, a amostra da classe média – que foi somente de São Paulo – foi usada apenas para ter um parâmetro. A lógica do estudo foi escolher casos muito diferentes entre eles, principalmente em relação aos pobres, cujas redes variam muito internamente.
“Por isso, escolhemos locais que representam situações urbanas diferentes no interior de cada cidade do ponto de vista da segregação, das condições de moradia e do tipo de habitação, como favelas próximas a bairros ricos e pobres, favela de periferia e outros, e representamos nas duas cidades situações de pobreza muito diferentes”, explicou.
Segundo ele, a escolha de São Paulo e Salvador se deu por se tratar de duas cidades com características bem diferentes do ponto de vista da malha urbana e do mercado de trabalho, mas o que se observou foi que os padrões gerais são similares.
“Percebemos que São Paulo apresenta redes de sociabilidade um pouco maiores, enquanto em Salvador as redes tendem a ser mais densas. Mas o que impressiona é justamente a similaridade em ambas, que sugere que esse padrão que obtivemos em São Paulo é sólido, ou seja, representa uma regularidade nas situações de pobreza”, disse o professor da USP.
Combinação complexa
As entrevistas focaram nas redes de contato do indivíduo. As pessoas foram abordadas em espaços públicos e em casa durante a semana ou no fim de semana. Foram coletadas informações relacionadas às redes e os atributos de seus componentes quanto ao gênero, idade e emprego, status usado para controlar a amostragem e combinação de critérios. Para as pessoas de classe média, as entrevistas foram agendadas por telefone.
“Nos dias da semana, por exemplo, entrevistávamos mais mulheres e, dependendo do horário, mais idosos e jovens. Corrigimos as diferenças nas entrevistas seguintes, realizadas em fins de semana”, explicou Marques.
Os perfis de sociabilidade mostraram semelhanças entre as cidades, com a esfera familiar respondendo em primeiro lugar, com 40,6%, e a vizinhança em segundo, com 31,6%. Em seguida, o trabalho correspondeu a 8%, seguido por amizades (5,9%), igreja (4,6%) e estudos (3,3%).
De acordo com Marques, a esfera familiar é muito alta também na classe média. “Mas pessoas pobres que têm redes concentradas na família, nos vizinhos e nos amigos tendem a ter condições piores do que pessoas com sociabilidade concentrada no trabalho, em associações e na igreja”, disse.
O conjunto das pesquisas conduzidas no CEM parte do pressuposto teórico de que o mundo do trabalho, as políticas e ações do Estado e a sociabilidade representam as três fontes de bem-estar, sendo decisivos para a superação da pobreza.
“Quanto menor a ‘homofilia potencial’ maior a probabilidade de se encontrar pessoas diferentes do grupo no qual se está inserido, em comparação com as esferas da família, da vizinhança e dos amigos. Com isso, as pessoas têm mais acessos a informação, repertórios e oportunidades”, disse.
A ideia do estudo é mostrar que muitos indivíduos podem estar segregados no espaço e, ao mesmo tempo, conectados por redes. “O espaço e as redes podem se combinar de maneira complexa, com um combatendo o efeito do outro”, afirmou Marques.
Segundo ele, a pesquisa estabelece, em um primeiro momento, uma relação entre a classe média e pobres, mas depois é feita uma aproximação nos indivíduos menos favorecidos.
“Quando se faz um mergulho na classe menos favorecida, existe uma enorme variedade interna. O estudo procura explicar por que alguns são mais e outros menos pobres, e por que alguns têm sociabilidade mais variada e outros menos, por exemplo”, disse.
A introdução do estudo de Salvador foi importante, segundo Marques, porque trouxe mais segurança para as hipóteses. “Em um primeiro momento, a situação pareceria específica para São Paulo, devido às suas peculiaridades econômicas e sociais, mas não era. O caso de Salvador mostra que há essa similaridade”, apontou.
As análises referentes a São Paulo serão publicadas em livro (no prelo), que será lançado em breve pela editora da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Mais informações: www.centrodametropole.org.br
Por: Agência Fapesp.
A discussão sobre pobreza quase sempre esbarra nos indicadores de renda, que explicam apenas uma das facetas do problema. Se duas pessoas tiveram acessos diferenciados a serviços públicos como educação e saúde, por exemplo – embora possuam a mesma renda nominal –, uma delas pode ser considerada mais pobre. Além disso, se ela estiver isolada espacialmente, será mais segregada do que a outra.
Pela renda a pobreza até pode ser atenuada, mas, por outro lado, a desigualdade não, pois é reproduzida de várias outras formas. Pesquisas feitas no Centro de Estudos da Metrópole (CEM) – um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) da FAPESP e também um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) – têm se dedicado cada vez mais a ampliar essa percepção.
Um dos eixos de estudo foca na relação entre redes sociais e pobreza e mostra que a desigualdade está presente também nas primeiras. Uma das hipóteses sugere que, além da renda, a sociabilidade – relações familiares, de amizade no trabalho ou na vizinhança, na igreja, associações, entre outras – tem grande impacto nas condições de vida.
Um estudo conduzido por Eduardo Marques, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do CEM, tem indicado que membros de redes com grande homofilia – com parceiros de contato com mesmo perfil socioeconômico e demográfico – têm maior dificuldade para conseguir um emprego, por exemplo.
“A pobreza é multidimensional e articula vários elementos sociais. Até agora, nossas análises sugerem que redes sociais de pessoas pobres tendem a ser menores, menos diversas e mais locais do que as da classe média. Mas essa constatação pode ser observada também entre os mais desfavorecidos, explicando por que alguns indivíduos são mais pobres do que outros com mesma renda”, disse Marques, coordenador da pesquisa, à Agência FAPESP.
A pesquisa sobre redes sociais – que conta com a participação de duas doutorandas e uma mestranda – foi apresentada durante o Seminário Internacional Metrópole e Desigualdade, realizado em março último.
O estudo de campo colheu dados de redes pessoais de indivíduos pobres de São Paulo e Salvador e comparou com uma pequena amostra da classe média. Foram cerca de 362 casos de pessoas pobres (sendo 209 de sete regiões em São Paulo e 153 de cinco regiões em Salvador) e 30 de classe média.
De acordo com Marques, a amostra da classe média – que foi somente de São Paulo – foi usada apenas para ter um parâmetro. A lógica do estudo foi escolher casos muito diferentes entre eles, principalmente em relação aos pobres, cujas redes variam muito internamente.
“Por isso, escolhemos locais que representam situações urbanas diferentes no interior de cada cidade do ponto de vista da segregação, das condições de moradia e do tipo de habitação, como favelas próximas a bairros ricos e pobres, favela de periferia e outros, e representamos nas duas cidades situações de pobreza muito diferentes”, explicou.
Segundo ele, a escolha de São Paulo e Salvador se deu por se tratar de duas cidades com características bem diferentes do ponto de vista da malha urbana e do mercado de trabalho, mas o que se observou foi que os padrões gerais são similares.
“Percebemos que São Paulo apresenta redes de sociabilidade um pouco maiores, enquanto em Salvador as redes tendem a ser mais densas. Mas o que impressiona é justamente a similaridade em ambas, que sugere que esse padrão que obtivemos em São Paulo é sólido, ou seja, representa uma regularidade nas situações de pobreza”, disse o professor da USP.
Combinação complexa
As entrevistas focaram nas redes de contato do indivíduo. As pessoas foram abordadas em espaços públicos e em casa durante a semana ou no fim de semana. Foram coletadas informações relacionadas às redes e os atributos de seus componentes quanto ao gênero, idade e emprego, status usado para controlar a amostragem e combinação de critérios. Para as pessoas de classe média, as entrevistas foram agendadas por telefone.
“Nos dias da semana, por exemplo, entrevistávamos mais mulheres e, dependendo do horário, mais idosos e jovens. Corrigimos as diferenças nas entrevistas seguintes, realizadas em fins de semana”, explicou Marques.
Os perfis de sociabilidade mostraram semelhanças entre as cidades, com a esfera familiar respondendo em primeiro lugar, com 40,6%, e a vizinhança em segundo, com 31,6%. Em seguida, o trabalho correspondeu a 8%, seguido por amizades (5,9%), igreja (4,6%) e estudos (3,3%).
De acordo com Marques, a esfera familiar é muito alta também na classe média. “Mas pessoas pobres que têm redes concentradas na família, nos vizinhos e nos amigos tendem a ter condições piores do que pessoas com sociabilidade concentrada no trabalho, em associações e na igreja”, disse.
O conjunto das pesquisas conduzidas no CEM parte do pressuposto teórico de que o mundo do trabalho, as políticas e ações do Estado e a sociabilidade representam as três fontes de bem-estar, sendo decisivos para a superação da pobreza.
“Quanto menor a ‘homofilia potencial’ maior a probabilidade de se encontrar pessoas diferentes do grupo no qual se está inserido, em comparação com as esferas da família, da vizinhança e dos amigos. Com isso, as pessoas têm mais acessos a informação, repertórios e oportunidades”, disse.
A ideia do estudo é mostrar que muitos indivíduos podem estar segregados no espaço e, ao mesmo tempo, conectados por redes. “O espaço e as redes podem se combinar de maneira complexa, com um combatendo o efeito do outro”, afirmou Marques.
Segundo ele, a pesquisa estabelece, em um primeiro momento, uma relação entre a classe média e pobres, mas depois é feita uma aproximação nos indivíduos menos favorecidos.
“Quando se faz um mergulho na classe menos favorecida, existe uma enorme variedade interna. O estudo procura explicar por que alguns são mais e outros menos pobres, e por que alguns têm sociabilidade mais variada e outros menos, por exemplo”, disse.
A introdução do estudo de Salvador foi importante, segundo Marques, porque trouxe mais segurança para as hipóteses. “Em um primeiro momento, a situação pareceria específica para São Paulo, devido às suas peculiaridades econômicas e sociais, mas não era. O caso de Salvador mostra que há essa similaridade”, apontou.
As análises referentes a São Paulo serão publicadas em livro (no prelo), que será lançado em breve pela editora da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Mais informações: www.centrodametropole.org.br
Por: Agência Fapesp.
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